17 Junho, 2019

Stresse nos profissionais de saúde: é preciso cuidar de quem trata



O stresse ocupacional é uma área em debate no setor da saúde, quer pelo impacto nas organizações, quer pelos efeitos nos profissionais e utentes. Quando mal gerido, o stresse pode desembocar em quadros patológicos para os trabalhadores e em riscos para o sistema. O trabalho em saúde é caracterizado por padrões de exigência contínuos e por agentes stressores aos quais é preciso estar atento com o intuito de os controlar e, se possível, minimizar.

A exposição ao stresse em ambientes de trabalho é apontada como uma das áreas de impacto negativo no bem-estar físico e mental dos profissionais de saúde, com riscos diretos para o doente. Por serem organizações peculiares, os serviços de saúde são dotados de sistemas próprios e tendencialmente voltados para os utentes, proporcionando aos seus trabalhadores, sejam eles técnicos de saúde ou assistentes operacionais, condições de trabalho adversas.

As organizações hospitalares são compostas por recursos humanos altamente diferenciados, expostos muitas vezes a situações emocionalmente intensas, relacionadas com a gestão da vida, da doença, do trauma e da morte, o que causa ansiedade e tensão física e mental. Apesar de gratificante e socialmente reconhecido, o trabalho em ambiente hospitalar contribui para o desgaste dos profissionais, podendo desencadear situações de stresse ocupacional, fadiga e por vezes burnout. Por isso, é fundamental que as circunstâncias indutoras de stresse em contexto laboral sejam identificadas para traçar intervenções eficazes.

Nos últimos anos, muito se tem falado da “humanização” dos cuidados de saúde. Estudos desenvolvidos nesta área têm como objetivo melhorar a qualidade dos serviços na óptica da experiência do utente. Nesse sentido, pouco se tem investido na segurança, satisfação e integridade dos profissionais. As condições de trabalho, a motivação e, em consequência, o bemestar dos trabalhadores em saúde é preterido em função de uma maior aposta na resposta às necessidades da população. Por outro lado, a exposição a fatores psicossociais no contexto ocupacional pode ter um impacto positivo no sistema, ao contribuir para a humanização dos serviços. Não obstante, pode igualmente acarretar riscos, sobretudo se esses fatores forem desfavoráveis ao desenvolvimento da atividade profissional e à qualidade de vida do indivíduo.

Os vários indutores de stresse

O trabalho em saúde é pautado por padrões de qualidade e exigência que, por si só, desencadeiam situações de desgaste, sobretudo quando os recursos disponíveis não estão adequados às necessidades do trabalho. O excesso de trabalho – quer seja pela quantidade, quer pela qualidade – é fonte habitual de fadiga profissional. Por oposição, a atribuição rotineira de tarefas simples face às capacidades do trabalhador é também um fator indutor de stresse a longo prazo.

O trabalho por turnos é característico das instituições de saúde. No entanto, do serviço sujeito a variações de horário advêm consequências. Estudos têm demonstrado que os trabalhadores que praticam trabalho por turnos apresentam com maior frequência queixas de fadiga crónica e alterações gastrointestinais. Essas influências são tanto biológicas como emocionais, devido às alterações dos ritmos circadianos, do ciclo sono-vigília, do sistema termoregulador e do ritmo de excreção de adrenalina.

O trabalho em saúde implica um serviço que é produzido por pessoas para pessoas e, apesar das relações interpessoais serem uma das características básicas do ser humano, há relações que nem sempre resultam positivas, podendo converte-se em agentes stressores. Boas relações num grupo de trabalho são um fator central da saúde individual e organizacional. Porém, relações ambíguas, pautadas pela desconfiança, falta de cooperação e crítica destrutiva podem elevar os níveis de tensão entre membros de um grupo. De facto, as relações entre colegas podem ser altamente nocivas para a saúde mental quando não se guiam pela compreensão, tolerância, espírito de ajuda e procura da qualidade. Mais importante do que encontrar culpados é perceber o que está na origem da falha ou erro e corrigi-lo.

Os conflitos de papel constituem uma fonte importante de stresse nos profissionais de saúde. Esta ambivalência começa na percepção comum de que o seu trabalho é compensador e simultaneamente exaustivo. Médicos, enfermeiros e assistentes têm de lidar com expectativas dos doentes e familiares, colegas e superiores, as quais nem sempre convergem, podendo mesmo entrar em conflito com as suas atitudes e motivações pessoais.

Alguns estudos revelam que a implementação de novas tecnologias nas organizações tem sobrecarregado os serviços. As novas tecnologias podem contudo facilitar os contextos de trabalho, diminuindo situações indutoras de stresse. É, por isso, essencial dotar as organizações de sistemas que respondam às necessidades dos utentes, mas também às necessidades dos seus profissionais. Qualquer período de adaptação a novas tecnologias requer tempo e formação para se poderem atingir os resultados esperados.

Os efeitos do stresse

A exposição prolongada ao stresse ocupacional está associada à síndrome do desgaste profissional, caracterizada por altos níveis de exaustão emocional, que acabam por contribuir para a despersonalização dos cuidados e falta de realização pessoal.

A resposta individual à fadiga laboral pode ser psicológica, com sintomas como ansiedade, irritação e depressão, ou psicossomática, como dores de cabeça, náuseas e problemas de sono, que geram impacto negativo no profissional, mas também na segurança do paciente e na qualidade dos cuidados prestados.

A longo prazo, as consequências do desgaste profissional incluem falta de motivação, aumento do risco de doenças cardiovasculares, transtornos musculoesqueléticos, baixos níveis de rendimento, baixa produtividade, absentismo e adoção de comportamentos nocivos, como o tabagismo ou o alcoolismo. No limite, uma das possíveis consequências da multiplicidade de exigências laborais é o surgimento do burnout ou esgotamento laboral, que pode muitas vezes versar em conjunto com patologias mais depressivas e ideação suicida.

Conclusão

Embora níveis controlados de stresse possam motivar comportamentos produtivos, a realidade é que uma percentagem considerável dos profissionais de saúde experiencia reações adversas ao stresse que afetam a sua saúde física e mental, pondo em risco o seu bem-estar pessoal, a segurança dos cuidados prestados e por conseguinte utentes e organizações. É por isso aconselhável estabelecer estratégias promotoras da saúde mental em contexto laboral. Um plano de ação na gestão hospitalar para controlar os níveis de stresse, desgaste profissional e satisfação no trabalho pode ser uma solução eficaz a longo prazo, quando acompanhada de uma implementação de processos facilitadores e tecnologia ajustada.